Em 2006, quando fazia a campanha de Ana Júlia, conheci uma figura irrequieta, espirituosa, bem formada, bem humorada e excelente companhia. Calculei o quanto aprenderia naquele futuro que a nossa amizade iniciante projetava.
Aquela figura gordinha, falante e flagrantemente ansiosa ganhou a nós todos, vindos de longe, com sua simpatia e enorme inteligência. Me fiz presente em um ou outro comentário em seu blog e recebi dele, sempre, de volta, a boa resposta dos amigos, me dizendo “venha sempre”.
Um dia, eu soube, Lauande foi morto. Por um marginalizado desses por quem ele, com seu trabalho e sua visão de mundo, sempre trabalhou para melhorar a vida. Porque Lauande fez muito para melhorar o mundo.
Havia um outro blogueiro, que eu sempre quis imitar. De quem eu sempre ouvi falar bem, pelo bem que se fala de alguém, de fato, do bem. Sabia do Pará por suas notas conscientes e bem escritas, nunca neutras, nunca falsamente imparciais, sempre muito honestas.
Esses elogios feitos após o passamento de alguém podem soar apenas cortesia ao morto, mas, nos dois casos a quem me refiro, faço-o por convicção e porque, em vida, disse a eles a mesma coisa.
Juvêncio eu vi uma única vez. Saímos, ele, Paulo Heineck e eu, numa segunda-feira como hoje, no dia 8 de junho, para jantar no restaurante do Orly. Ele sugeriu. “Uma casa bonita e de boa comida”. Fechada. Sem atentarmos para o dia que era, fomos ao restaurante da Dalva. Fechado. Acabamos na Cantina Italiana. No caminho e lá, uma conversa de cerca de três horas em que nos conhecemos bem, até.
Juvêncio me disse que estava indo para a Bahia. Sua esposa iria trabalhar na Universidade Federal do Recôncavo, em Cachoeira, cidade histórica onde se deu a última refrega da independência do Brasil, e seu filho faria vestibular para a UFBA. Pediu-me ajuda para encontrar um apartamento na Graça, bairro pelo qual se engraçara. Falamos de Albino Rubin, Caetano, carnaval, política, filosofia, de música, comida, de Pará e de Bahia.
Ele nos falou, a mim e a Paulo Heineck que iria fazer uns exames no dia seguinte ou que esperava resultados de alguns exames que fizera, agora não sei ao certo. Mas, não bebeu, disse que comeria pouco e nos disse que não era um problema de saúde qualquer. Mas, não falou que seria câncer. Talvez, não soubesse.
Quando a sua coluna deixou de ser atualizada, comentei com PH que achava estranho. Achamos que poderia ser por problemas de saúde. Cheguei a achar que ele estava em Salvador e, por muito amar esta terra, não disse a todos que iria. Veio a nota do “boot” do computador. Nenhum computador, por pior que seja, fica na oficina tanto tempo. E nem Juvêncio precisaria “do” computador para atualizar seu site. Todos sabemos que pode-se atualizar um blog ou site de qualquer computador.
Ligamos para ele. Ele disse que estava doente e que repousava. Disse que era sério. Grave. Porém, não se falou em câncer, então.
Li no “Espaço Aberto” a confirmação do câncer. Liguei para ele. Da primeira vez, ele não pôde atender e falei com seu filho. Perguntei sobre a mudança para Salvador e Lucas me respondeu que o projeto estava adiado por causa da doença do pai. Mas, falou que Juvêncio estava bem humorado – e ele mesmo passava muita esperança no tom de voz.
Dia seguinte, era quinta-feira, voltei a ligar. Juvêncio atendeu. Falamos por uns 10 minutos. De política, de trabalho, de blogs (do dele e do meu), de amizade e solidariedade. Ele respirava com alguma dificuldade, talvez estivesse cansado, e falava pausado. Me falou da extensão do câncer que o acometia e do que ele mesmo esperava: “a qualquer momento um vento pode me levar”. Talvez a frase não tenha sido essa, mas, tinha vento e levar – e dor. Eu respondi que o vento ia passar e que eu levaria na casa dele, esta semana, uma garrafa de um bom vinho para tomarmos daqui a um ano. Ele gargalhou.
Dia seguinte ele foi levado ao hospital. Hoje, 13, o vento o levou para o céu.
Eu sei onde estão as garrafas. Há muitas delas. Vou escolher uma e guardar. Quero me lembrar de, daqui a um ano, beber o vinho em homenagem a Juvêncio. Em homenagem ao amigo de um encontro só, mas, de muita força.
Ainda bem que eu o vi vivo.
Caro Giorlando, passei pelo blog por acaso e descobri comovido que você também era amigo de Juvêncio Arruda. Era um grande cara, um grande amigo.
Em Belém, no dia seguinte ao velório, tomei algumas cervejas na intenção dele.
Porque nada melhor do que lembrar de um amigo como ele tomando uma cerveja. Ou um bom vinho. A partir de hoje serei um frequentador do seu blog.
Grande abraço e parabéns pela bela homenagem que acabei de enviar ao Quinta Emenda.
Dirceu Matrangolo
Dirceu, meu blog está paralisado, porque estou em Belém há dois meses. Um dia ele voltará à vida, o blog. Creio que Juvêncio também. Obrigado pela visita e pelo comentário. Nos vemos por aí.