Beleza interior: a ideia antiga

Saiba como este blog foi pensado inicialmente. Qual era a ideia inicial. A minha proposta inicial – que pensei para um jornal diário -  era fazer uma viagem diferente pelas cidades da Bahia, mostrando pecualiaridades que não ganham as páginas de jornais e noticiários de TV, mas, orgulham os moradores. Um resgate de locais, culturas, tradições, personagens e histórias e estórias de cada lugar, com a sua atualização para os dias de hoje. Não desisti do projeto, interrompo-o por dificuldades momentâneas de execução. Vou manter o projeto atualizando esta página. Aqui, a ideia vai sendo alimentada, quando eu tiver as tais condições, migro para um site completo. LEIA ATÉ O FIM, OU O QUANTO PUDER. PODE SER QUE GOSTE.

O roteiro do blog

No topo do blog estava uma foto da praça Castro Alves (praça da Matriz) – que eu calculo que tenha sido feita nos anos 60. Ela é mesma que está abaixo sob o título “Começando Por Jacobina”. Flagra o momento em que uma procissão se inicia em frente da igreja matriz de Jacobina. A praça já se chamava Castro Alves e, diferente de hoje, era bela pela simplicidade. Mas, as terríveis lacerdinhas, uns insetos minúsculos que viviam nos ficus que davam sombra à praça, incomodavam demais. E se a pessoa vestisse amarelo, então, elas choviam sobre ela. Nos olhos, ardiam como pimenta. Hoje não há mais ficus ou lacerdinha. A cidade mantém alguns dos prédios em estilo colonial da praça, mas nem a praça é a mais a mesma, nem a matriz, que ganhou a segunda torre.

A vontade era trazer mais sobre Jacobina. Coisas da cidade, do povo, de ontem e de hoje.

A ideia central era de, com a ajuda de amigos, trazer notas de cada lugar, as peculiaridades, o charme que não sai no jornal nem na TV. Mais alma que exterior; mais história e menos tourist sight.

Nosso roteiro começaria por Jacobina. Em seguida, Feira, seguindo a minha “trajetória”, passando por Jequié, Itabuna, Vitória da Conquista, até chegar a Salvador. Cada vez que uma cidade fosse destacada, uma foto dela ocuparia o topo do blog. Fiz este roteiro para facilitar as coisas para mim, pois conheço um pouco de cada lugar e tenho amigos lá que poderiam me ajudar. Mas, o meu desejo mesmo era trazer informações, dados, agenda cultural e notas sobre todas as cidades, a qualquer momento, fora do meu roteiro. Ainda quero ter capacidade de fazer isso. Tudo para mostrar a beleza (do) interior da Bahia. De antes e de agora. Eu espero conseguir.

Obrigado pela paciência e colaboração.

Bem-vindos.

A ideia inicial era publicar em A Tarde

Um dia, no começo de 2006, fui ao diretor de A Tarde, Sílvio Simões, a quem apresentaria um projeto para o jornal. Levava-o em um envelope pardo, digitado em 4 páginas tamanho ofício. Terminei por esquecer o envelope no táxi. O dono do jornal me perguntou com algum aborrecimento, ao ver que não pus nada sobre a mesa a não ser as mãos: ” Cadê o projeto?”. Eu falei a verdade: “Acabei deixando no banco do táxi que me trouxe”.

Pareceu mentira.

Tentei explicar, então, o projeto: “A ideia é mostrar aspectos da Bahia que o leitor não está acostumado. Não apenas cachoeiras, serras, grutas e micaretas, mas, aquilo que os moradores – e não os fotógrafos da capital – acham bom e/ou bonito; o que faz com que as pessoas se sintam orgulhosas do lugar onde vivem”.

Sílvio: “Nós não estamos precisando de gente para fazer isso. A empresa tem repórteres contratados para este trabalho. Se houver algo para mostrar a gente manda o repórter lá”. Ali, o dono de A Tarde já estava mais simpático. Deve ter contado que éramos “amigos”. Eu o conheci em abril de 1983, em Feira de Santana. Eu era um “foca” no jornal Feira Hoje e ele fora à cidade lançar um livro de poesias: Fantoches. Ele era bem jovem, sorria mais e parecia compreender os sonhos, pois tinha os dele.

Compreendi a rudeza inicial. Sendo ele um homem ocupado tinha razão de ficar aborrecido com um cara que é anunciado como o “jornalista que está trazendo um projeto novo para o jornal” e diante dele se senta alguém sem nada em mãos e apenas uma idéia na cabeça. Idéia mal exposta, numa tarde em que Sílvio Simões orientava o responsável pelo setor financeiro da empresa a negociar com o fisco estadual: “Informe que atualizamos o Refis e que já quitamos as parcelas do acordo. Ligue para Fulano e acelere isso. Temos que ter essas respostas antes de os bancos fecharem”. Coisas assim, que não me lembro bem, pois não prestei muita atenção por não ser da minha conta. Nem eu estava ali fazendo reportagem.

Acabou por me oferecer um emprego. Me falou antes dos planos da empresa de abrir pequenos jornais nas principais cidades da Bahia, a começar por Feira: “Porque sabemos que no interior as pessoas não compram o jornal da capital, não anunciam, tem laços com a imprensa local”. Ligou para Teixeira, ele estava de férias. Não ganhei o emprego. Os pequenos jornais do interior não vingaram (ainda). As questões com o fisco parecem ter andado bem. E eu nem falei que para Sílvio que o nome do projeto era “Beleza Interior”.

Consistia em sair pela Bahia filmando e fotografando aquilo que os moradores das localidades apontassem como o seu orgulho. E escrever sobre esse orgulho sem a obrigação de convencer turistas e sem a preocupação de encher páginas do jornal de fim de semana com clichês e fotos dos mesmos lugares, dos mesmos rios, riachos, cachoeiras, serras, praias e cartões postais das não mais que duas dúzias de cidades que a mídia da Bahia mostra como “a Bahia linda de ser ver”.

Sei que não é isso ainda o que você vê neste início de blog (15 de abril de 2009). Vai demorar uns dias. Vou precisar de ajuda, que as pessoas façam contato e me digam onde está a beleza de sua cidade ou de outra cidade que elas conheçam. Eu vou lá ou receberei aqui as histórias e estórias, de antes e de agora e, especialmente, as informações sobre os locais, coisas e pessoas que fazem essas cidades bonitas de valer a pena. Quero ter capacidade de mostrar a beleza (do) interior da Bahia. De antes e de agora. Eu espero conseguir. Quem sabe A Tarde não acaba publicando?

Começando por Jacobina

Praça, igreja Matriz e procissão

A foto mostra a praça Castro Alves, de Jacobina. Foi feita nos anos 60 e flagra o momento em que uma procissão se inicia em frente da igreja matriz. Hoje, nesta mesma praça, a cidade mantém alguns dos prédios em estilo colonial, mas nem a praça é a mais a mesma, nem a matriz, que ganhou a segunda torre.
A cidade já foi uma das mais importantes do estado da Bahia, na política e na economia. Após um período de decadência, entre o final dos anos 80 e boa parte dos 90, agora Jacobina se recupera economicamente. Politicamente perdeu força. Mas, a fé do povo se mantém. A gente vai ver isso.

Um pouco antes…

A foto abaixo mostra a mesma praça da Matriz, nominada anos mais tarde praça Castro Alves, em um tempo muito anterior. Calculo uns 20 anos. Não havia ainda a praça, com seus ficus e bancos, mas, havia um coreto; a igreja da Matriz tinha um vão central bem diferente e ao lado esquerdo, onde um dia será a segunda torre, está sendo construído um “puxadinho” do templo. O cenário na praça era um tanto árido, mas, vê-se uma árvore. E uma mulher, que anda sozinha e nem percebe que estava sendo eternizada pela foto. O fotógrafo, com certeza, nem a viu direito. Nós a vemos. Quem terá sido?

Matriz 1947

… muito depois.

Não é a mesma praça, não são os mesmos bancos, nem as mesmas flores daquele antigo jardim. A praça Castro Alves agora tem um Castro Alves de bronze, tem fonte luminosa e não tem lacerdinha nem ficus, como era nos anos 60 e 70. A igreja matriz tem duas torres. Uma parte dos antigos casarões foi preservada.

Na praça da Matriz em 2007

A foto, feita em abril de 2007, mostra uma família aproveitando a tranquilidade da praça, enquanto outras pessoas passeiam por perto, 60 anos depois que aquela mulher atravessou a rua sem perceber o fotógrafo.

Os Cão e a Marujada


Os Cão dos novos tempos

Quando eu era menino e chegava a micareta via descer a serra da Caixa d’Água, em cujo início de ladeira eu morava, os Cão. Bem pretos, com chifres e fazendo algazarra. Eram alegres, gritavam e cantavam. Mas, eu tinha medo. Afinal, eram os Cão. Apesar do medo, eu queria estar na porta quando eles descessem a serra correndo.
Na micareta, uma festa, duas coisas lembravam a morte: os Cão, remetendo aos moradores e donos do inferno para onde ninguém queria ir mas a Igreja ameaçava mandar todo mundo e as mortalhas, a fantasia que vestia os foliões que seguiam o trio elétrico. Mortalha era a roupa que vestia os mortos, especialmente os anjinhos, com seus vestidinhos de seda ou viscose, quase sempre azul, brilhante.
Ah, a letra da música também remetia a morte: “atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu”.  Devo ter tentado verificar algumas vezes se faltava alguém conhecido na multidão que ia atrás do trio elétrico.

Por que os Cão são pretos?

Os Cão ainda saem na micareta. Não sei se ainda são trabalhadores pobres, descendo a serra. O que sei deles é o que me contam. Não moro mais em Jacobina. O que me intriga é que nesses tempos de análise sociológica de tudo é ainda não ter encontrado um estudo, ensaio, artigo que seja, tratando da cor atribuída ao cão, termo que, se não disse ainda é porque acho que todo mundo sabe, não se refere aos caninos, ao animal cachorro, mas ao satanás, ao diabo. “O cão atenta”, dizia-se para significar que o diabo tenta, como a Jesus no deserto. Mas, diferente da literatura, das gravuras antigas, do cinema, o diabo da micareta de Jacobina nunca foi vermelho, cor de fogo do inferno, mas, negro. Deve-se isso a uma cultura de preconceito, que vendeu o negro como o mal, aquele que assusta?
Me lembro de pelo menos dois diálogos da minha infância. Em um deles, um “menino rico” de uma rua perto me mostrava o seu álbum de figurinhas de times. Na página do Bahia, nenhuma figura. “O Bahia só tem preto, é feio e eu não gosto. Preto é coisa do cão”. Foi assim mesmo? Certamente não exatamente, porém foi esse o conteúdo. O outro diálogo: “Não entre aqui na piscina, não, que eu chamo minha mãe. Sai daqui, seu preto dos ‘inferno’”. Uma menina falando comigo, numa das oportunidades em que “invadí” o Leader Esporte Clube, do qual nunca fui sócio.

Uns Cão

Os Cão, óbvio, são pessoas que se pintam de preto. Eram, então, negros na maioria, já. Hoje, não sei. Mas, há em Jacobina uma tradição de quase 300 anos que é mantida por pretos. E é linda, diria Caetano e digo eu. A Marujada. Ninguém se pinta de outra cor. Pura tradição, de família para família, há quase três séculos.

Um pouco mais da Marujada

Fiz uma busca no Google e achei vários sites e blogs que falam da cidade e mostram as suas fotos do tipo tourist sight. Mas, são foto boas. Fora deste padrão vi algumas fotografias de Rui Lima. Um belo trabalho. Eu estava procurando a Marujada, uma tradição da cidade que se apresenta nas festas religiosas da cidade. Quando eu era menino amava ver a Marujada nas festas de São Benedito e de Santo  Antônio e, se não me engano, na festa da 2 de Janeiro, uma associação que existia na cidade. Conheci Joaquim Polia, um grande nome do grupo, há muito falecido. Ele era coveiro no cemitério da cidade. Veja algumas fotos da Marujada e pegue mais informações em http://www.fl.ul.pt/unidades/centros/ctp/lusitana/rlus_ns/rlns05/rlns05_p35.pdf
e http://www.ispiaki.com.br/index.php?page=jacobina&jacobina=049

Marujada de Jacobina anos 50Marujada anos 70

Apenas como referência histórica: a Igreja da Missão, foi construída pelos jesuítas em 1626 (383 anos) e  a primeira denominação oficial de Jacobina (Freguesia Velha do Sertão de Jacobina) data de 1682. A Marujada existe em Jacobina há cerca de 300 anos, segundo os descendentes dos seus fundadores oriundos da África. Alguns descendentes ainda participam do auto popular.

Marujada atualmenteMarujada nos dias de hoje

5 respostas

24 05 2010
VICTORIA

ADORO A MARUJADA

31 05 2010
Giorlando Lima

Obrigado por ter vindo aqui. Eu queria mostrar mais da Marujada e mais que a Marujada, mas eis que chegou a roda-viva e levou o meu desejo para mais longe da realidade. Se você quiser postar algo sobre a Marujada ou outras manifestações culturais de Jacobina ou de outro lugar é só mandar.

5 01 2010
Música

Nossa que linda viagem nestes tempos de rica cultura popular. MUITO BACANA ESTA SUA ATITUDE. AMEI!
Cá em Minas temos as festas do rosário e o reizado, que tbém é muito rico. Há tambem outras festas populares, mas estas, prendem minha atenção pela intensidade da alegria nelas contidas.

20 12 2009
Paulo D'tarcio

É BOM VER ESSA HISTORIA, ÓTIMA FOTO DE DÉCADAS PASSADAS E A DE ARILSON DO ISPIAKI.

7 06 2009
Gervásio Lima (Fio)

Diga reis,

‘Ói êu dinôvo’.

Porreta esta ideia do ‘Beleza Interior’. A história contatada para quem participou ou participa dela é mais emocionante do que a contada (mostrada) para turista ver. Uma pena o seu projeto inicial ter ficado dentro do táxi, mas, esquenta não, nada é por acaso. A velocidade e a rapidez que as informações viajam pela internet não se comparam a de um veículo de aluguel que circula, por maior que seja, numa grande cidade.

Sugiro que priorize a continuação desta ‘viagem’ pelo município de Canudos, mostrando e informando de uma maneira que todos gostariam de saber… bem além do ‘sensacionalismo literário’ do escritor Euclides da Cunha (que diga-se de passagem, não pisou os seus pés por lá).

Precisando de fotografias de Canudos, tenho algumas que podem caracterizar o cotidiano de um povo que não sabe ao certo o que realmente aconteceu.

Forte abraço.

Gervásio Lima.

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